ontem fiquei vendo um programa sobre a vida da victoria beckham. aos desinformados: ex-integrante das spice girls, mulher de david beckham, ícone da moda, rata de desfiles e anoréxica não-assumida. para quem quiser lembrar, ela é a skinny bitch dessa foto
aqui. enfim, o fato é: a mulher é um fósforo. e, pra ser sincera, eu nunca fui com a cara dela. sempre achei algo estranho ali. ela era sempre tão séria, sempre olhando pra todos os lados nos eventos de tapete vermelho e derivados. estranho, realmente estranho. então lá fui eu saber a origem do drama.
a história começa nos 18 anos dela. infinitamente menos magra mas igualmente insegura. tímida, neurótica, sempre com medo que a sua pele ruim ou seus dentes separados ou seu teórico excesso de peso (inexistente) aparecesse em fotos e vídeos. sempre querendo parecer perfeita. logo depois as spice girl começam e, rapidamente, atingem o auge. e, com a mesma rapidez, acabam. o casamento com david beckham e, posteriormente, a presença em diversos desfiles garantem a ela uma fama ainda maior. mas o que a mantem nos tablóides e na boca das pessoas não é uma coisa nem outra. é o peso. o peso e todas as fotos em que cada osso dela aparece com uma clareza perfeita, uma nitidez assustadora. e pior: a mesma obsessão por parecer perfeita. quando você pára pra observar cada entrevista ou aparição da victoria beckham você percebe que os olhos dela vão passando por todos os fotógrafos com um medo nítido. cada movimento dela é meticulosamente arquitetado pra que nenhuma boca torta estrague sua foto. a mesma neurose, a mesma insegurança. obcecada pela perfeição.
então o programa acaba e eu me pergunto:
o que exatamente me separa de victoria beckham? que o meu peso está longe do ideal não é novidade pra ninguém. mas talvez a minha loucura fique por baixo dos panos. talvez muita gente não saiba que eu não permito que ninguém tire fotos minhas ou que eu já fui escondida pegar câmeras que continham fotos em que eu não estava bem pra poder apagar. as minhas fotos são meticulosamente tiradas e, de 100, eu gosto de 1. pra que aí então entre o photoshop e, só assim, ela possa ser devidamente utilizada. é provável que, se eu fosse famosa, eu enlouquecesse exatamente como ela. ficaria neurótica com os mil flashes, choraria por dias seguidos e me trancaria em casa cada vez que uma foto ruim minha fosse divulgada. sim, eu admito, eu sou obcecada pela perfeição.
mas então o que me separa, afinal? porque, veja bem, victoria é obcecada pela perfeição, pela magreza, pela beleza. e ela faz por onde. ela fica sem comer, ela faz o que for preciso. anorexia é isso, afinal, não é? é não medir esforços pra atingir a perfeição sem perceber que ela não existe e, antes dela, vem a morte. mas, que coincidência, eu também quero a perfeição! eu também não sei assimilar que ela não existe. então porque diabos eu fico parada e não faço nada? porque eu e victoria beckham pensamos IGUAL e agimos diferente? porque ela pára de comer e fica parecendo um graveto enquanto eu continuo comendo e fico igual a um hipopótamo? AONDE mora a diferença? sinceramente, eu não sei explicar. e parece piada mas não é. talvez os dois extremos sejam igualmente patéticos. mas uma coisa é certa: o extremo dela faz mais sentido. é, no mínimo, uma demonstração do que ela quer. ainda que exagerada e sem limites. mas e eu? dizer que quero uma coisa e fazer outra, o que é isso, afinal? eu realmente não me entendo.
me pergunto se um dia eu vou realmente estar satisfeita em frente ao espelho. se um dia eu for magra talvez seja um passo pra própria anorexia em si. a perfeição que eu busco é incansável, é doentia. só quem convive comigo e assiste de camarote pode perceber. talvez a sorte seja o fato deu ser pobre e desconhecida. porque uma coisa é certa: se eu fosse famosa já tinha enlouquecido com a exposição e a falta de controle diante dela. e se eu fosse rica já teria feito tantas plásticas pelo corpo todo que teria virado um manequim. imóvel e artificial.

i don't care if it hurts, i wanna have control.
i want a perfect body, i want a perfect soul.
(creep - radiohead)